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Geral | 08/03/2010 08:00

8 DE MARÇO - DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Para marcar a data, a assessoria de comunicação do sindicato entrevistou seis trabalhadoras para saber como elas conseguem conciliar a chamada “dupla jornada”, uma rotina estressante no trabalho e em casa, com a vida, o cuidado com os filhos e o sentimento de independência conquistado pelas mulheres nos últimos anos. Também para saber a opinião delas sobre a indiscutível ascensão da mulher no mercado de trabalho, a relação com o sexo oposto em casa (namorado/marido) e no trabalho (chefe), entre outras importantes questões.

Fonte: Geraldo Muzykant - STIMMMEC


Mulher: mais coração, forte e valente!

Há 100 anos, a ONU – Organização das Nações Unidas definiu o 8 de Março como a data máxima da mulher, dia em que ela poderia celebrar os avanços conquistados a partir de então e refletir sobre sua condição social, sua história, seus desafios, tudo para poder avançar ainda mais.

E por que esta data foi escolhida? Porque, segundo a história oficial, 53 anos antes, em 1857, cerca de 130 operárias teriam ocupado uma fábrica de tecidos para reivindicar a redução de jornada e melhores condições de trabalho, mas foram trancadas e assassinadas num incêndio criminoso promovido pelo patrão. A data ficou marcada como um exemplo de mobilização, resistência e luta da mulher contra a repressão cometida por homens, especialmente os que detêm o poder político e econômico em casa e no trabalho.

Para marcar a data, a assessoria de comunicação do Sindicato dos Metalúrgicos entrevistou seis trabalhadoras para saber como elas conseguem conciliar a chamada “dupla jornada”, uma rotina estressante no trabalho e em casa, com a vida, o cuidado com os filhos e o sentimento de independência alegadamente conquistado pelas mulheres nos últimos anos. Também para saber a opinião delas sobre a indiscutível ascensão da mulher no mercado de trabalho, a relação com o sexo oposto em casa (namorado/marido) e no trabalho (chefe), entre outras importantes questões.

Esta entrevista – na verdade, um agradabilíssimo bate-papo de uma hora, semelhante a um “happy our”, com a vantagem de ser em pleno horário de expediente – foi realizada na manhã da sexta-feira, 5 de março, e teve como cenário uma pequena sala da MWM International Motores, líder em tecnologia e desenvolvimento de motores a diesel da América Latina e subsidiária da norte-americana Navistar International. Ressalte-se o ineditismo do encontro: pela primeira vez na história de nossa base, a pedido da Comissão de Fábrica, o sindicato recebe autorização para ingressar numa empresa e entrevistar algumas funcionárias. Aliás, esta iniciativa foi louvada por todas, que, durante o bate-papo, fizeram questão de manifestar a satisfação de trabalhar no local, uma empresa organizada e que, supostamente, dá oportunidades para as mulheres, é sensível, democrática, aberta às reivindicações, ao diálogo e às negociações.  
 
Aqui no Brasil, principalmente nos últimos 40 anos, o ingresso e a ascensão no mercado de trabalho foi, talvez, o maior avanço da mulher. Segundo a OIT – Organização Internacional do Trabalho, a taxa de participação das mulheres no mercado de trabalho aumentou de 50,2% para 51,7% entre 1980 e 2008. E hoje as companheiras assumem funções em profissões que há pouco tempo eram exclusivas de homens, especialmente na segurança patrimonial, no transporte coletivo, na construção civil, nas montadoras e nas indústrias de componentes eletro-eletrônicos, só para citar alguns exemplos. Em proporção semelhante, cresceu o número de mulheres chefes de família e caiu o poder aquisitivo dos homens (segundo o Dieese, o salário mínimo do trabalhador brasileiro deveria ser de R$ 1.987,26 – equivalente a 3,9 vezes o valor do mínimo atual – para suprir as necessidades básicas de sua família). Então, essa ascensão foi uma necessidade, uma forma de (ajudar a) sustentar a família? Ou foi a busca da independência em relação ao homem?

Apesar de não descartar o fator necessidade, a maioria das entrevistadas entende que foi a busca pela independência que levou a mulher a ingressar no mercado de trabalho e assumir funções outrora eminentemente masculinas. “A mulher está mais independente, quer ajudar no sustento da família e não quer depender do homem para comprar suas coisinhas”, declara Elisângela Bitencourt, da Montagem. Já, Renata Rodrigues, da segurança patrimonial, confessa que, num primeiro momento, entrou no mercado de trabalho para buscar independência financeira, mas depois entendeu que o fez também por necessidade, uma forma de buscar a realização profissional e ajudar no sustento de sua família.

A mulher está pagando um preço muito caro para buscar a independência financeira e o sustento da família. Não obstante o fato de, muitas vezes, se sentirem culpadas por não dar a devida atenção principalmente para os filhos, as mulheres têm consciência de que seu ingresso no mundo do trabalho gerou um problema comumente conhecido como “dupla jornada” durante o dia, ficam mais de 10 horas fora de casa por conta do trabalho e, depois, à noite, destinam de três a cinco horas do seu tempo para cuidar da casa, fazer a comida, lavar a roupa, dar atenção aos filhos e ao marido. Mal sobra tempo para cuidar de si própria, combater os efeitos nocivos que esta avassaladora rotina impõe à saúde física e emocional.

Surpreendentemente, esta situação comum à maioria das mulheres não abate as seis entrevistadas. Elas afirmam dar conta da rotina e achar tempo para tudo. “Quem tem filhos, organiza a rotina. Isso é uma característica da mulher”, afirma Renata Alves, do Almoxarifado. “Às vezes, a gente não está bem, mas tem que ficar bem! Tem que dar um jeito
na situação e ter um jogo de cintura até quando os filhos começam a fazer algumas perguntas surpreendentes. Porque aí, nestes casos, o marido diz: Ó, mulher, resolve isso aí!”, conta Rosângela Bitencourt. “A gente aprende a fazer tudo rápido e prático”, completa Renata Rodrigues, mãe de dois filhos, reconhecendo que não está sozinha na condução do lar e que seu marido a tem ajudado em tarefas importantes. “Acredito que os homens estão mais participativos. Aos poucos, eles estão aprendendo a ajudar porque têm consciência de que a gente trabalha e colabora financeiramente em casa”, opina Ana Flores, do Almoxarifado.

O assunto enveredou para opiniões sobre os aspectos comportamentais e as diferenças de visão e de práticas entre os homens e as mulheres. Mais uma vez, houve consenso. Todas concordam que “o homem é mais razão e a mulher, mais coração”. Para elas, o homem foi criado numa cultura ainda muito machista, que impõe estereótipos do tipo “homem não chora”, reprimindo-o de manifestar abertamente suas emoções. Segundo elas, a mulher teria um lado mais humano e não teria tanto o medo de expor seus sentimentos. É por isso que, muitas vezes, dentro desta cultura machista, a mulher é vista como um ser inseguro, emotivo, indeciso, prudente demais diante de certas situações ou na hora de dirigir – inclusive, veículos – e tomar decisões. Para Carla Bianchini, na verdade, a mulher tem mais jogo de cintura, é mais diplomática, menos impulsiva, mais conciliadora. Para Renata Rodrigues, num lar, “se o homem é a cabeça, a mulher é o pescoço”, pois consegue direcioná-lo para o rumo certo.

Opiniões à parte, o certo é que a mulher é o esteio da família e, pelo menos para as companheiras da MWM International, apesar da cultura machista, os homens estão reconhecendo isso e estão contribuindo de alguma forma. E isso pode ser, inclusive, sentido dentro da própria empresa, onde acreditam ser valorizadas, ser respeitadas, contar com a solidariedade dos colegas e ter oportunidades e esperanças de crescimento profissional.

Atualmente, a base metalúrgica de Canoas possui apenas 15% de mulheres, um número pequeno (mas que está crescendo!), se comparado com o percentual de homens. Infelizmente, a realidade mostra que a participação nos rumos da categoria não se dá na mesma proporção. Raramente, as mulheres são vistas nas reuniões e assembléias da categoria. Isso acontece não porque a mulher tem menos consciência, mas porque ela enfrenta a dupla jornada e ainda vê o sindicato como território exclusivo dos homens. Há quem, por exemplo, não se sinta atraída pela luta sindical por entender que a forma usada pelo sindicato para abordar os trabalhadores, manifestar e mobilizar, é radical demais.

“Empurrões e agressões verbais não somam nada. Acredito que os trabalhadores podem se manifestar de outras formas”, diz Renata Rodrigues, sem avaliar o fato de que tais mobilizações são bastante esporádicas e, muitas vezes, feitas porque a intransigência pode estar residindo no lado da empresa, e as portas terem se fechado unilateralmente para o diálogo e a negociação, não restando outra alternativa para o movimento sindical do que realizar alguma mobilização mais forte. As demais companheiras entrevistadas entendem como normal e até saudável a relação que pode em algum momento ser conflituosa entre empresa e sindicato, mas deixam claro que a tolerância e o diálogo devem imperar sempre, seja entre sindicato e empresa, ou entre trabalhadores e chefias. Marisa Flores Rodrigues, componente da comissão de fábrica que, junto com o sindicato e a Cipa, luta para preservar, garantir e conquistar avanços trabalhistas na MWM, entende que a mulher pode sim ser mais participativa. Ela, que tem dois filhos, cuida da casa e, recentemente, enfrentou sérios problemas de saúde, é enfática ao dizer que “a gente sempre acaba dando um jeito. Quando entrei para a comissão, quis passar uma imagem de alguém que, longe de ser inimiga da empresa, estava muito interessada em lutar pelos direitos e representar o bom número de mulheres dentro da fábrica. Acho que estou conseguindo”. Renata Rodrigues, por sua vez, reconhece o esforço da colega e revela que, talvez por causa dela, hoje se sente mais segura e à vontade para participar de alguma atividade na empresa.

Por causa da força e da valentia da mulher, cada vez mais os homens tendem a se render às suas companheiras de lar e de trabalho. Há muito a mulher deixou de ser mera espectadora para tornar-se protagonista de tudo o que acontece, ditar os rumos da civilidade e da justiça. Parabéns, mulheres mães, companheiras, amigas!

 


 
 
Uma data para celebrar
Tem mesmo que comemorar!
A mulher nasce e cresce para o mundo simplesmente poder existir!
Se cozinha, é para alimentar.
Se ensina, é para construir.
Se aprende, é para transcender.
Se concebe, é para gestar.
Se gesta, é para perpetuar.
De tudo o que participa, a mulher agrega valor – em casa e no trabalho.
Com os pés no chão, ou distante sete centímetros, sustentados heroicamente na panturrilha, a mulher se impõe.
Operária nata, mesmo quando não atua.
Agregadora, mesmo quando solitária.
Mantenedora, mesmo quando protegida.
Frágil, mesmo quando carrega o mundo nas costas.
A mulher é uma força da natureza – às vezes, furacão; às vezes, brisa delicada; sempre a indicar o rumo das coisas.

Fonte: Jornal Correio do Povo, edição de 8 de março

 



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